Deus está no fundo do poço
Certa vez, ouvi uma história que remonta ao início do século vinte.
Perto dos anos trinta, na Polônia, um certo homem estava fazendo a barba, como era seu costume todas as manhãs após terminar o café. Então, sua filha de cinco anos entrou correndo pelo banheiro. Ao observar seu pai fazendo a barba, ficou imóvel por um tempo; de repente se aproximou do pai e perguntou:
Papai, onde Deus mora?
O homem sem pensar duas vezes respondeu:
Deus mora no poço, meu amor.
A menina ponderou, e depois saiu correndo pelo corredor. Instantaneamente, o homem parou e se pôs a pensar sobre sua resposta “Por que foi que respondi isso?”, sua resposta parecia não fazer sentido nem mesmo para ele, quem dirá para sua pequena filhinha.
Saindo para o trabalho, deu um beijo na sua esposa e se despediu da sua pequena. Ao bater à porta, entrou no seu carro e, quando olhou o retrovisor, viu uma caravana passando pela rua.
Despertando sua atenção, ele desceu do carro para ver do que se tratava, ao se aproximar percebeu que era uma caravana de ciganos que atravessava a cidade. Aquela cena lhe despertou uma memória da infância.
Quando era criança, estava brincando na sala de casa e, ouvindo um alvoroço na rua, foi espiar pela janela o que estava acontecendo. Vendo que era uma caravana de ciganos, correu ao jardim.
Parado, olhando as pessoas caminharem, notou que uma delas se aproximava do poço no jardim de sua casa. Quando chegou mais perto, viu que era um homem muito, muito alto; sua pele era branca e sua barba e cabelos vermelhos como o cobre.
O homem grande tirou um balde de água do poço segurando com apenas uma mão, como se fosse uma xícara. Olhou para o garoto, e com um largo sorriso perguntou:
Você sabe o que tem no fundo do poço?
Água! - respondeu o menino.
Deus! Deus está no poço - disse o homem, enquanto olhava para o fundo.
Tomado pela curiosidade, o garotinho tentava se erguer nas pontas dos pés para ver Deus.
Percebendo a curiosidade do menino, o cigano o tomou pelos braços e o ergueu.
Você está vendo agora? - perguntou o cigano.
Eu vejo, senhor, mas ali só tem o meu reflexo e o seu.
Sim! - disse o homem, com um olhar de profunda contemplação - Deus mora no poço.
- Retirado do livro " O Infinito Ainda Fala", A. Foster.
O texto acima retrata, de forma muito positiva e inspirada, a sabedoria dos povos antigos transmitida de geração em geração, através de contos, histórias, fábulas e cantos. Se a história realmente aconteceu não importa, o seu valor está no ensinamento profundo que carrega.
Todos nós compartilhamos, em algum nível, dessa mesma sabedoria. Pare um monte e comece a pensar nas histórias que te foram contadas na infância. Algumas traziam cargas positivas, outras eram carregadas de negatividade e acontecimentos perturbadores; mas todas tinham a intenção de nos ensinar algo.
Quando o cigano diz que Deus está no fundo do poço, e logo em seguida mostra ao garoto seu próprio reflexo nas águas, ele passa para a criança o conhecimento do seu povo de que " todos somos a imagem do nosso criador", que por sua vez " vive nas profundezas de cada ser humano no mundo".
Paulo, o maior escritor do novo testamento da bíblia, disse algo que endossa a fala do cigano. No primeiro livro de Coríntios, no capítulo 13, ele escreveu o famoso texto sobre o amor de Deus; e no versículo 12 ele diz: "Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido".
Nosso nível humano nos separa, de certa forma, do nosso criador pois " Deus é espírito ", e nós somos carne, ou seja, nós estamos no plano material e sólido - o mundo onde tudo é relacionado pelos nossos sentidos. Deus, no entanto, está além da matéria, além dos sentidos, além de tudo; afinal a própria existência é criação dele.
E mesmo assim ele nos fez seus semelhantes, nos fez seus filhos, e um dia estaremos unidos com ele, Deus é nossa origem, assim como é também o nosso destino. Quando cada ser humano no mundo descobrir que o Pai que tanto procura sempre esteve nele mesmo, então dirá as mesmas que santo Agostinho:
" Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde demais eu te amei!
Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava fora! ".
- A. Foster
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